
No dia 21 de Setembro de 2007, estava eu a sair da escola onde dou aulas quando recebi um telefonema da minha, então advogada. Atendi à espera de ouvir qualquer coisa relacionada com o meu filho mas, sinceramente, nunca que a mãe dele pretendia levá-lo para fora do país. Naquele momento, depois de ouvir, fiquei a saber que a minha ex mulher tinha solicitado ao Tribunal de Família e Menores uma alteração do Acordo de Regulação Paternal. A intenção era mudar o acordado (e por ela nunca cumprido) de forma a poder ir viver com o meu filho para Angola. Fiquei gelado! Naquele momento temi perder ainda mais da vida do Gonçalo. Fiz alguns telefonemas para as pessoas que me são queridas e, juntamente com a minha advogada, decidi propor ao Tribunal que a guarda e poder paternal do Gonçalo me fossem entregues, pelo menos durante o período de ausência da mãe. Na verdade, a minha ex mulher apresentava um contrato de trabalho por um período de apenas um ano. Ora, assim sendo, para mim, parecia lógica que me fosse confiada a guarda do Gonçalo pelo menos por esse período. Desta forma eu, em conjunto com a minha família, poderia manter o menino no colégio onde estudava e assegurar-lhe o convívio com os seus restantes familiares, designadamente os avós maternos, e amigos.
Esperei ansioso por uma decisão judicial!
A mãe do Gonçalo informara o Tribunal da necessidade de chegar a Angola até ao dia 15 de Outubro de 2007. Em menos de um mês pretendia resolver a vida do Gonçalo e, com isso, impor sérias alterações na minha vida.
Assim foi, o Tribunal, diligente, marcou uma conferência de pais para o dia 10 de Outubro, se não me falha a memória. Confesso que entrei naquele edifício com a firme esperança de que, em nome do bem do Gonçalo, o Tribunal acabaria por decidir pela sua permanência em Portugal. Francamente, apesar dos tantos casos conhecidos ou simplesmente de que me falavam, eu acreditava numa decisão equitativa e, acima de tudo, de uma decisão em nome da criança. Não aconteceu assim! Mal entrei na sala de audiência, de imediato a Senhora Procuradora do processo me disse que estava decidido autorizar a viagem do meu filho para Angola. Portanto, restava chegar a um acordo quanto ao regime de visitas.
Estava decidido? Mas eu não me pronunciei, eu nada disse…e o Gonçalo? Estava decidido? Porquê? Por ser o melhor para o Gonçalo? Respondeu-me o Senhor Juiz que, neste caso, não existiam razões para alterar a guarda e o poder paternal. Razões? Mas…a mãe do meu filho quer fazê-lo viver longe dos seus familiares e amigos, num país distante, desconhecido e, como sabemos com sérios riscos em termos de segurança. Nada importa: estava decidido!
A partir daquele momento a mim só me ouviram dizer: Senhores doutores, se o Gonçalo entrar no avião eu nunca mais o vejo! Senhores doutores, durante quatro anos a mãe do meu filho nunca cumpriu o acordo de regulação do poder paternal. Não o cumpriu em Portugal eu garanto que não cumprirá em Angola. E assim foi, repeti estas frases durante cerca de duas horas.
Foi a minha advogada quem, por mim, fez as alterações do acordado quanto ao regime de visitas. Eu sempre soube: nunca mais voltaria a ver o Gonçalo.
O Gonçalo tem agora 8 anos mas, ainda assim, não entendo como foi possível escolherem para ele, sem sequer o ouvirem, um destino e uma vida longe de casa e de parte das pessoas que ele ama.
Senhores doutores, infelizmente eu tinha razão: Algum dos senhores me sabe dizer, com absoluta certeza onde está o meu filho? Não o vejo desde o dia 21 de Outubro de 2007. Algum dos senhores me sabe dizer porquê? Algum dos senhores é capaz de fazer cumprir este acordo? Algum dos senhores sabe como vai o Gonçalo de saúde? Como corre a escola?
Senhores doutores, daqui por dez anos, pelo menos daqui por dez anos eu vou querer apresentar-lhes o meu filho, nessa altura com dezoito anos e, sinceramente, vou querer que o ouçam, pelo menos nessa altura, sobre a decisão que, em nome dele tomaram!
Continuo sem notícias do meu querido filho!